
por Simone de Beauvoir
Sentia dores, dormia mal, apesar dos seis comprimidos de aspirina que ingeria diariamente. Nestes últimos dois ou três anos, sobretudo depois do último inverno, vi-lhe sempre aquelas olheiras arroxeadas, o nariz muito afilado, de asas quase transparentes, as faces encovadas. : desarranjos do fígado, preguiça intestinal; ele receitava alguns remédios, geleia de tamarindo para a prisão de ventre. Não me surpreendi de que nesse dia ela se sentisse adoentada; o que realmente me incomodava é que tivesse passado um mau verão. Poderia ter ido passar uma temporada num hotel ou num convento que aceitava pensionistas. Mas contava ser convidada, como todos os anos, para Meyrignac, pela minha prima Jeanne, ou para Scharrachbergen, onde vivia minha irmã. Mamãe ficara em Paris, vazia, e onde chovia. “Eu, que jamais soube o que era ter pressentimentos sombrios, desta vez tive-os”, disse-me ela.
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