
por Rainer Maria Rilke
Richard Dehmel3: com relação a seus livros (e, diga-se de passagem, também com relação à pessoa, que conheço superficialmente), ocorre que, ao encontrar uma de suas belas páginas, sempre tenho receio da seguinte, que pode estragar tudo e transformar o que era louvável em algo indigno. O senhor o caracterizou muito bem com as palavras: "Viver e escrever no cio". De fato a vivência artística está tão inacreditavelmente próxima da vivência sexual, de sua dor e de seu prazer, que os dois fenômenos na verdade constituem apenas formas diversas de um mesmo anseio e de uma mesma ventura. Se, em vez de cio, pudéssemos dizer sexo, em um sentido elevado, amplo, puro, não afetado por nenhuma suspeita equivocada por parte da Igreja, a sua arte seria grandiosa e infinitamente importante. Sua força poética é intensa como um impulso primitivo, ela possui alguns ritmos próprios violentos e jorra como que de uma montanha. Contudo, parece que essa força nem sempre é sincera e sem vaidade. (Mas essa é mesmo uma das mais difíceis provações para o criador: ele precisa permanecer sempre inconsciente, desprevenido de suas melhores virtudes, caso não queira tirar delas a inocência e a integridade!) Quando
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