
por Antoine de Saint-Exupéry
II Eu pensava comigo então: “O essencial é que em algum lugar aquilo de que vivemos permaneça. E eu me sentia ameaçado em minha própria substância pela fragilidade dos polos longínquos de que eu dependia. Arriscava conhecer um verdadeiro deserto, e comecei a compreender um mistério que por muito tempo havia me intrigado. Eu também sonhei, como tantos outros, com sua magia. Quem conheceu a vida saariana, onde tudo, aparentemente, é apenas solidão e despojamento, chora, entretanto, por tais anos como os mais belos que viveu. As palavras “nostalgia da areia”, “nostalgia da solidão”, “nostalgia do espaço” são meras fórmulas literárias e não explicam nada. Todavia, pela primeira vez, a bordo de um navio fervilhando de passageiros amontoados, parecia-me compreender o deserto. Decerto, o Saara oferece, a perder de vista, somente uma areia uniforme, ou melhor, um cascalho pedregoso, pois as dunas são raras.
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